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Desculpe-me

Azul, rosa, laranja e roxo. Eram as cores que se misturavam no céu durante o crepúsculo daquele dia. Nunca tinha visto um céu mais colorido e vibrante como naquela tarde de terça feira. Naquele parque inteiramente verde que parecia não ter fim, me via deitado na grama enquanto lembrava de tudo que me levava até ali. Olhei para o lado e vi um casal deitado abraçados em cima de um lençol branco com pequenas borboletas amarelas, tão delicadas que pareciam ter sido pintadas uma a uma. Me lembrei de meus pais, que durante todos os seus anos de casados nunca tiveram um momento de amor e carinho que eu havia presenciado. Acredito que o casamento infeliz deles acabou me deixando mais desacreditado com o amor. Enquanto o céu se tornava totalmente azul e todas as cores que antes tinham se fundem em apenas uma, me questiono o que um poeta escreveria desse momento em que me encontro. Não digo de textos satíricos e decadentes que se assemelham com a minha alma, como Gregório de Matos, mas nas ide…
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Sou Normal Sim

Quando saí do banho e me vesti eu não tinha a mínima ideia de tudo que iria estar acontecendo agora. Mas para você conseguir entender toda a história teremos que voltar um pouco no tempo. Para entender mesmo, teríamos que voltar à minha infância, quiçá ao meu nascimento, pois foram todos os pequenos detalhes da minha decepcionante vida que me levou a tomar as decisões do fato que prestes estou a te contar. Desde que possuo minha primeira memória, já sabia que um dia essa decisão deveria ser tomada. Aos meus seis anos empurrei meu primo mais próximo (Alves era como o chamava por não possuirmos o mesmo sobrenome e esse ser o da família de seu pai) de uma janela que dava saída para a Avenida dos Agricultores, aqui na minha cidade. Depois desse evento, que eu classifico como um acidente, todos da família decidiram interromper qualquer tipo de relação comigo. A próxima vez que eu iria receber uma palavra a mim direcionada de meus avós foi três meses depois, no enterro da minha mãe. Desde …

Benquerença

Toma-me a mim como se fossemos um só Traga-me teus monstros Entregue-me teus desejos Que, com todo meu coração, desvelarei até ajudar-te
Com tudo que me foi revelado Com todo amor a mim confiado Me entregarei por completo A tudo que me delegastes
Pois com meu amor, que já tens por inteiro Me colocarei em nós Como uma criança se lança no colo de seus pais Com todo coração que já a mim não pertence
Portanto traga-me teus monstros Entrega-me teus desejos Que contigo estarei Até que finde nossos fôlegos E até que não passarmos de no céu lampejos

João Vitor Gonçalves

Aos Marotos

Me sinto feliz e realizado, mas o desespero habita em mim. Sempre fui uma pessoa alegre e alto astral, mas meu futuro me afligia. Uma angustia que só quem passa por momentos de tensão pré-vestibular compreende. Tive um momento de calmaria em meio a tanto caos interno que sofria. Conheci três pedrinhas preciosas que por muito tempo tinha medo de chegar perto pra não as quebrar ou as machucar. Sempre havia observado de maneira distante essas preciosidades, mas nunca me aproximei porque acreditava que nenhuma pedra preciosa iria gostar de se relacionar com um pedaço quebrado de vidro. Porém, mesmo com todas as incertezas, nos aproximamos. Eu, sempre com cuidado para não as machucar com meus cacos, me senti acolhido como nunca sentira antes. Em uma semana me tornei íntimo das pedrinhas de uma forma que meses com outras pedras não se igualariam. Eu, sempre com borboletas no estômago como quem encontra seu primeiro amor, me abri e me doei a tal amizade. Hoje fiquei sabendo de duas das ped…

Inconsciente

Era tarde de uma terça feira monótona. Geralmente não saio de casa após as seis mas nesse dia algo me instigou a deixar minha cama e desbravar a noite fria e úmida de julho. O cheiro de flores dominava a rua em que ficava a pousada onde estava hospedado. Continuei andando em direção ao ponto boêmio da cidade sem saber muito bem o porquê. Ouvi uma banda que estava tocando minha música preferida da Tommy Tutane e tentei entrar no bar onde eles estavam mas fui barrado pela idade. Sabia que nenhum bar me deixaria entrar, mesmo faltando apenas cinco horas pra completar os tão esperados dezoito anos. Fiquei na porta do bar, sentado na calçada, cantarolando a música até acabar. Pensei em retornar para a pousada e dormir um sono profundo e induzido mas lembrei que a única condição dos meus pais terem deixado eu viajar sozinho era me divertir e não ficar o dia inteiro na biblioteca estadual (que fiz questão de ser a duas quadras de distância da pousada). Então continuei andando pelas ruas com …